Esse mundo...tsc, tsc, tsc.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Dos Mistérios
Aquilo que não se acessa com a razão é mistério. Mas o que se acessa pela fé é real, ao menos para quem a deposita ali; só que é, justamente, a razão que explica o inteligível, a responsável por elevar o óbvio da fé à condição de mistério.
Esse mundo...tsc, tsc, tsc.
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domingo, 25 de outubro de 2009
Salão de Beleza [o mundo]
Bem, o que eu vou escrever aqui pode parecer romântico, carregado daquele partidarismo pró-povo, remanescente da década de 60, início de 70; mas não, juro que é fruto, simplesmente, da observação, do olhar atento às ruas de São Paulo – atenção que me custou a estigma de desatento e esquecido.
Nesse sábado a Av. Paulista e as ruas adjacentes estavam mais movimentadas do que de costume. Era compreensível, já que os cinemas das imediações recebiam os filmes da 33ª Mostra de Cinema. Deixei o carro no estacionamento que, costumeiramente, estaciono. Fiz o que tinha para fazer e, na volta, antes de descer a rampa do estacionamento, reparei numa senhora que, sentada numa mureta pegada à calçada, fazia com paciência e bom-humor a unha de outra senhora também paciente e bem-humorada. A querida comentou o que viu comigo e, antes de respondê-la, continuei a andar e processar o que via: a senhora sentada, tendo ao seu lado uma bolsa recheada de todos os equipamentos necessários para realizar o seu ofício com capricho, toalhinha sob as coxas, alicate na mão, os ônibus passando sem dar folga ao silêncio e ao ar já poluído da rua. Como aconteceria em qualquer salão de cabeleireiro ou de beleza, a prosa rolava descontraída, sem pressa. Tenho uma tia que criou os filhos assim, respondi.
Fiquei tão feliz com o que vi. O mundo, por mais mundo-cão que seja, infestado de uma corrupção desmedida, de uma política de merda, de uma vontade egoísta de engolir os menos favorecidos em favor dos já ricos e arranjados, jamais será capaz de acabar com o povo, o povão; porque só ele tem a capacidade de se inventar a cada dia, criar calado as condições para resistir à tirania, seja ela qual for. A vida acontecia ali, na calçada, independendo de crise, maldade, ou de seja lá o que.
Não há situação que conspire contra nós, desde que sejamos criativos. Estamos acima de toda e qualquer maldade, é só nos darmos conta disso. Para que precisamos de políticos? Nos inventamos com ou sem eles.
Nesse sábado a Av. Paulista e as ruas adjacentes estavam mais movimentadas do que de costume. Era compreensível, já que os cinemas das imediações recebiam os filmes da 33ª Mostra de Cinema. Deixei o carro no estacionamento que, costumeiramente, estaciono. Fiz o que tinha para fazer e, na volta, antes de descer a rampa do estacionamento, reparei numa senhora que, sentada numa mureta pegada à calçada, fazia com paciência e bom-humor a unha de outra senhora também paciente e bem-humorada. A querida comentou o que viu comigo e, antes de respondê-la, continuei a andar e processar o que via: a senhora sentada, tendo ao seu lado uma bolsa recheada de todos os equipamentos necessários para realizar o seu ofício com capricho, toalhinha sob as coxas, alicate na mão, os ônibus passando sem dar folga ao silêncio e ao ar já poluído da rua. Como aconteceria em qualquer salão de cabeleireiro ou de beleza, a prosa rolava descontraída, sem pressa. Tenho uma tia que criou os filhos assim, respondi.
Fiquei tão feliz com o que vi. O mundo, por mais mundo-cão que seja, infestado de uma corrupção desmedida, de uma política de merda, de uma vontade egoísta de engolir os menos favorecidos em favor dos já ricos e arranjados, jamais será capaz de acabar com o povo, o povão; porque só ele tem a capacidade de se inventar a cada dia, criar calado as condições para resistir à tirania, seja ela qual for. A vida acontecia ali, na calçada, independendo de crise, maldade, ou de seja lá o que.
Não há situação que conspire contra nós, desde que sejamos criativos. Estamos acima de toda e qualquer maldade, é só nos darmos conta disso. Para que precisamos de políticos? Nos inventamos com ou sem eles.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Tempos Pós-Modernos(?)
Meus alunos mais jovens confessaram que notam o tempo passar numa velocidade rápida demais; meus colegas professores confessaram o mesmo. Será que as experiências vividas por essa – nossa – geração são tão pouco significativas a ponto de serem desprovidas da falsa sensação de eternidade que, costumeiramente, acompanha os momentos especiais de nossas existências individuais? Será que não existe experiência capaz de gerar reflexões que perdurem dias e dias, parando, aparentemente, o tempo, para, assim, desfrutarmos o momento presente e o seu porvir? Será que as nossas vidas estão, a partir de agora, entregues a uma velocidade ditada por novos costumes que não sabemos ao certo quais são, e que imaginamos ser fruto de uma era onde os acontecimentos se sucedem na velocidade da informação e dos veículos pelos quais elas se propagam?
Talvez não estejamos nos dando conta, mas o momento de transição pelo qual passa o mundo, nos descaracteriza de tal maneira, que já não conseguimos reconhecer a nós mesmos, quanto mais àqueles que compartilham conosco as experiências que deveriam ser únicas e, mais, as chaves para orientar nossa existência e as experiências pelas quais nossas vidas passariam a ter sentidos relevantes.
Enjoamos do novo antes de conhecê-lo – uma característica muito clara de quem não reconhece o presente, mas vê no futuro um universo de possibilidades que talvez nunca encontre. Desprezamos uma nova experiência com o mesmo descaso que uma criança troca no seu console o jogo que não mais te agrada. Ambicionamos uma política democrática que pela nossa conduta não vai mudar nunca; balbuciamos palavras que fizeram sentido no passado e, assim, depositamos nossas esperanças naqueles que não conheceram o nosso mundo, mas souberam reivindicar uma realidade melhor para si. Xingamos uns aos outros para não xingarmos nós mesmos, transferindo para um desconhecido os horrores que não queremos encontrar no espelho.
Somos uma geração tão pouco compromissada com aqueles que estão por vir, que não maquiamos mais nossas incapacidades atrás de um falso moralismo; simplesmente abrimos mão da moral – e isso não nos causa nenhum sentimento de culpa. Mas somos modernos, e isso parece que nos basta. Mas como somos modernos? Pulamos a transição, que deveria ser o agora, para embarcarmos num futuro descabido de utopia. Ou seja, saímos da barbárie para entrar na modernidade. Esquecemos de ficar ereto, mas nos convencemos de que criamos o fogo.
Talvez não estejamos nos dando conta, mas o momento de transição pelo qual passa o mundo, nos descaracteriza de tal maneira, que já não conseguimos reconhecer a nós mesmos, quanto mais àqueles que compartilham conosco as experiências que deveriam ser únicas e, mais, as chaves para orientar nossa existência e as experiências pelas quais nossas vidas passariam a ter sentidos relevantes.
Enjoamos do novo antes de conhecê-lo – uma característica muito clara de quem não reconhece o presente, mas vê no futuro um universo de possibilidades que talvez nunca encontre. Desprezamos uma nova experiência com o mesmo descaso que uma criança troca no seu console o jogo que não mais te agrada. Ambicionamos uma política democrática que pela nossa conduta não vai mudar nunca; balbuciamos palavras que fizeram sentido no passado e, assim, depositamos nossas esperanças naqueles que não conheceram o nosso mundo, mas souberam reivindicar uma realidade melhor para si. Xingamos uns aos outros para não xingarmos nós mesmos, transferindo para um desconhecido os horrores que não queremos encontrar no espelho.
Somos uma geração tão pouco compromissada com aqueles que estão por vir, que não maquiamos mais nossas incapacidades atrás de um falso moralismo; simplesmente abrimos mão da moral – e isso não nos causa nenhum sentimento de culpa. Mas somos modernos, e isso parece que nos basta. Mas como somos modernos? Pulamos a transição, que deveria ser o agora, para embarcarmos num futuro descabido de utopia. Ou seja, saímos da barbárie para entrar na modernidade. Esquecemos de ficar ereto, mas nos convencemos de que criamos o fogo.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Aqui é o Presente?
Cada vez mais me convenço de que o tempo presente – esse em que as nossas vidas transcorrem com a pressa das grandes cidades – é um momento de transição onde o passado já foi esquecido, o presente está com um pé num futuro que não se consolidou e que impede o presente de ser o que é.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Histórias de Banco
Ir ao banco em dia chuvoso, quando não é para conferir uma gorda conta bancário, só tem uma vantagem: ficar debaixo de um teto e não tomar chuva. Isso porque eu procurei algum motivo pra não encarar com pessimismo a longa fila que me aguardava. Também fui munido de um livro, na certeza de que o tempo que eu passaria em pé era suficiente pra colocar a leitura em dia, e concluir, no mínimo, um capítulo.
Enquanto eu me esforçava para não perder a concentração em meio aos mexericos que vinham de todos os lados, dois homens na minha frente começaram a conversar. Um deles aparentava ter 55 anos, era baixinho e falava gesticulando, dando a impressão que ficaria na ponta dos pés para dar a devido proporção às aventuras que contava para o amigo que acabara de fazer na fila da Caixa Econômica.
– Bandido bom é bandido morto – disse o valentão de 1,60m.
– Se a polícia convocasse voluntários para matar vagabundo, eu ia sem pensar duas vezes – respondeu o outro, com um largo sorriso no rosto.
Fechei o livro e o coloquei debaixo do braço. O relato jornalístico morno de uma família afegã, nos dias que sucederam a queda das torres gêmeas e o aumento das tropas americanas na caça aos terroristas, não superaram a imaginação aventureira dos dois senhores. Animados, os homens continuaram:
– Eu tenho a mira boa – falou um deles com uma arma imaginária na mão, mirando em direção ao caixa.
– A minha também – o outro não podia deixar por menos. Olharam para os lados e notaram as pessoas ao redor prestando atenção, inclusive eu, que não querendo servir de platéia, e nem parecer curioso, abri novamente o livro.
– Teve um dia em que eu falei pro maluco no bar: “Você não aparou o chifre, corno?” Rapaz, o homem endoidou. Veio pra cima de mim feito um louco. Saquei um 38 que, na época, andava comigo, e enfiei na fuça dele; quase encostei o bicho no queixo do mané. Abaixei o berro – fazia tempo que eu não ouvia alguém usar essa palavra para designar revólver – e atirei na coxa do cara.
Pronto, começou a mentirada, pensei.
O painel eletrônico apitou e piscou o número do caixa livre. O homem foi andando em direção à moça que o aguardava do outro lado do balcão, mas antes de dar as costas para o amigo, disse:
– Todo corno é churrasqueiro.
Não agüentei. Parei de fingir ler e ri na mesma hora. O colega dele também riu e num meneio de cabeça perguntou por quê.
– Os caras enchem a casa de homem todo final de semana. Pode apostar que o amante também é convidado. Pode ver, pode ver... – saiu rindo e entregou as contas para a caixa.
O outro homem, na minha frente, não achou tanta graça na conversa. Ainda bem que a fila andou e a conversa acabou.
Enquanto eu me esforçava para não perder a concentração em meio aos mexericos que vinham de todos os lados, dois homens na minha frente começaram a conversar. Um deles aparentava ter 55 anos, era baixinho e falava gesticulando, dando a impressão que ficaria na ponta dos pés para dar a devido proporção às aventuras que contava para o amigo que acabara de fazer na fila da Caixa Econômica.
– Bandido bom é bandido morto – disse o valentão de 1,60m.
– Se a polícia convocasse voluntários para matar vagabundo, eu ia sem pensar duas vezes – respondeu o outro, com um largo sorriso no rosto.
Fechei o livro e o coloquei debaixo do braço. O relato jornalístico morno de uma família afegã, nos dias que sucederam a queda das torres gêmeas e o aumento das tropas americanas na caça aos terroristas, não superaram a imaginação aventureira dos dois senhores. Animados, os homens continuaram:
– Eu tenho a mira boa – falou um deles com uma arma imaginária na mão, mirando em direção ao caixa.
– A minha também – o outro não podia deixar por menos. Olharam para os lados e notaram as pessoas ao redor prestando atenção, inclusive eu, que não querendo servir de platéia, e nem parecer curioso, abri novamente o livro.
– Teve um dia em que eu falei pro maluco no bar: “Você não aparou o chifre, corno?” Rapaz, o homem endoidou. Veio pra cima de mim feito um louco. Saquei um 38 que, na época, andava comigo, e enfiei na fuça dele; quase encostei o bicho no queixo do mané. Abaixei o berro – fazia tempo que eu não ouvia alguém usar essa palavra para designar revólver – e atirei na coxa do cara.
Pronto, começou a mentirada, pensei.
O painel eletrônico apitou e piscou o número do caixa livre. O homem foi andando em direção à moça que o aguardava do outro lado do balcão, mas antes de dar as costas para o amigo, disse:
– Todo corno é churrasqueiro.
Não agüentei. Parei de fingir ler e ri na mesma hora. O colega dele também riu e num meneio de cabeça perguntou por quê.
– Os caras enchem a casa de homem todo final de semana. Pode apostar que o amante também é convidado. Pode ver, pode ver... – saiu rindo e entregou as contas para a caixa.
O outro homem, na minha frente, não achou tanta graça na conversa. Ainda bem que a fila andou e a conversa acabou.
sábado, 20 de junho de 2009
Prece
Como são bons os dias em que as ações valorosas nos tornam dignos de preenchermos o breve tempo que aqui, no mundo do agora, haveremos de viver. Que a inspiração torne-se uma constante, e revele sua verdade na ação altruísta. Só temos que agradecer o breve lampejo da luz que nos torna divinos, nem que seja apenas por alguns instantes; pois eles podem ser eternos. Amém.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Meia Saudade
O pessoal da Mojo Books publicou um texto postado aqui nesse blog, originalmente com o título "Conclusões de um Diário". Lá no site da editora, o conto ganhou o título "Meia Saudade", já que foi escrito inspirado por essa canção do acordeonista Toninho Ferragutti. Abaixo está a capa do "single". Se você não leu ele aqui, pode conferi-lo no site da Mojo.

Abraços.
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